sexta-feira, 16 de março de 2012

cinemudo

lembranças do cinza
aquele fosco sedutor
lembranças das cortinas fechadas
da cor pálida
da meia luz no quarto
dos chás

estado febril confortante
dizeres da máquina de carne moída
pré tensões putrefatas
volátil

são os olhos
esses alarmadores
que quando captam o suficiente
gozam no rosto
sádicos

segunda-feira, 5 de março de 2012

aos poucos

Os músculos, traumatizados ainda doem. As veias continuam saltadas e já é outra noite. Não sei se durante o sono o sangue esfriou, sei que dormi pouco e mal. Para um corpo traumatizado, o tempo é mais gentil,somos menos responsáveis. O que pretende o tempo fazer com a minha cabeça? Não vou esguiar de minha própria existência, vou me culpar apenas pelo que sou e pelo que fiz.Os achismos eu deixo para você. Não é o corpo que treme, é o choque do meu mundo com as palavras tuas. Não é a vermelhidão do meu rosto, do meu pescoço, dos meus braços que me faz ser tela, é a cena toda que me fizeram ser parte. É o muro e são as pedras. O que posso fazer, se toda reação que me permito expor, com a maior fragilidade, te faz subir uma sobrancelha, lançar aquele sorriso irônico? Tudo soa como exagero. E aí meu corpo treme, desesperado por compreensão, por qualquer sinceridade. O respeito se perdeu no tom das perguntas e o que ficou no peito, não é bom. O drama perfeito, digno de Hollywood. E não sou eu quem dirige, não sou eu quem atua, não sou eu que sou. O que me permitiram ser, eu recusei. Agora estou sozinha. Não sou vítima, não sou vilã, sou a completa falta de existência. Vou mentir e me destruir aos poucos. Um ataque de nervos, eu sou a louca.

domingo, 4 de março de 2012

Ficção III : perdão, só que ao contrário

O pior dia da minha vida, foi quando descobri o que minha família acha que eu sou.
Eu sou intragável, a decepção personificada, o vício, o descontrole, o desrespeito, a vergonha nos olhos de quem vê. Sou tudo isso, senhores da razão, tudo isso só que ao contrário. Egoísmo é me ter como exemplo aos seus modos e jogar esse fardo nos ombros de quem daria a vida por vocês. Sim, eu sei que fariam o mesmo, mas não sem antes me matar. Renasci numa noite para morrer noutra. Colocaram-me novamente na posição que eu menos gosto de estar. Agora eu sou esse animal raivoso. Agora e outra vez.
Dez anos de culpa pesaram hoje, e me tornaram isso. Sem culpas pelo que não sou, e toda a culpa pelo que faço. Esse animal.
Só que ao contrário.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ficção II : seguem os minutos contados depois das horas

Ela logo soube aonde estava entrando. Passado o primeiro confronto, palpitações ainda fora do ritmo habitual, aquela noite foi travada. E daquele pontapé, outras pancadas seguiram a impactar a massa cinzenta, um universo inteiro abalado por um suspiro tremido. Quantas veias saltaram do pescoço, da testa, das mãos, quantos nós sufocantes haviam se dado e os desejos interpretados tortuosamente, quantos minutos contados depois das horas, todos devidamente contados. Por debaixo da calça florida, feita de um pano leve e solto, por debaixo de seu diminutivo, dentro era oceano, era o balanço feroz de uma ressaca. Tanta água , tanta água para se afogar, tanta profundeza que a pressão se equivalia a imensidão do escuro molhado. Não podia-se medir, era insulto de uma pequeneza deplorável. Ela não dizia uma palavra formada, eram sílabas, era gorjeios loucos por liberdade, pela esmola, pela sensibilidade ínfima. E respirava forte, seria notada em qualquer ambiente por aquela respiração, por aquela e só. Seguem as pausas, os olhares baixos, o franzir da testa, seguem os minutos contados depois das horas, o silêncio descomunal e o sepulcro sentido daquilo. A cena era linda, a mulher apaixonada é linda.
-O que é que se pode concluir aos vinte e quatro? Ela pensava enquanto buscava mais perguntas.
E logo a resposta sarcástica vinha vomitada, imbecil.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ficção I : um envelope cor de pele com marca de batom vermelho puta

disseste repetidamente não para um desejo eloquente, um quase amor.
e depois das frases programadas, das palavras cheias de outras coisas, me atentei para outros lados. Distraí-me, querido.O anseio pelo suspiro já não é, procurei alguma ardência, formigamento, alguma emoção, só me chegava a negação. Perdi em algum momento que não sei qual foi, a vivacidade daquilo tudo, a história agora é crônica, rápida. A ausência de sentido me tomou conta, rasgou o peito, percorreu as veias cheias do sangue fervoroso, vermelho puta, paixão. Gostar da intensidade é beirar ao precipício, tanto quanto seu oposto extremo. E cruzar essa linha pode ser fatal, na pior das hipóteses. O que pairava no ambiente era uma expectativa por descobrir, num descuido da vaidade, alguma sinceridade. A expressão era continuamente monótona e eu caí na observação, sempre tendi ao silêncio...Fui posta numa posição que não me serve, como se implorasse por alguma reação. Não, não é nada disso, meu bem. Não se culpe por não ser um psicótico, um anormal, um avulso às sensações, que não é tua essa vida, é de um outro ídolo, uma outra personagem...Nossos calcanhares de aquiles são maravilhosos depois que descobertos e aceitos, a dor é boa, o sangue ferve, vida. É linda tua fragilidade mascarada e tua sensibilidade à flor da pele, apesar dos desgostos da carne e outros traumas, é maravilhosa a frustração por medo de tentar gozar o mundo, é fundo querido, profundo.Outra hora talvez eu queira seduzir você, num abrupto surto sexual. E dizer tanto sexo por agora faz com que eu ache graça, porque não é minha prioridade. Sim, a libertinagem me proporciona tudo isso, mas em períodos férteis, não é contínuo, não é. Essa sua falta de coragem e ação só me remeteu ao que mais te incomoda, a destruição por opção. Tão romântico és...e eu sou apenas uma apaixonada. Chore, meu quase amor, quando quiser ....que eu olho para trás e sorrio para você.

Com carinho,
Paixão.