terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ficção II : seguem os minutos contados depois das horas

Ela logo soube aonde estava entrando. Passado o primeiro confronto, palpitações ainda fora do ritmo habitual, aquela noite foi travada. E daquele pontapé, outras pancadas seguiram a impactar a massa cinzenta, um universo inteiro abalado por um suspiro tremido. Quantas veias saltaram do pescoço, da testa, das mãos, quantos nós sufocantes haviam se dado e os desejos interpretados tortuosamente, quantos minutos contados depois das horas, todos devidamente contados. Por debaixo da calça florida, feita de um pano leve e solto, por debaixo de seu diminutivo, dentro era oceano, era o balanço feroz de uma ressaca. Tanta água , tanta água para se afogar, tanta profundeza que a pressão se equivalia a imensidão do escuro molhado. Não podia-se medir, era insulto de uma pequeneza deplorável. Ela não dizia uma palavra formada, eram sílabas, era gorjeios loucos por liberdade, pela esmola, pela sensibilidade ínfima. E respirava forte, seria notada em qualquer ambiente por aquela respiração, por aquela e só. Seguem as pausas, os olhares baixos, o franzir da testa, seguem os minutos contados depois das horas, o silêncio descomunal e o sepulcro sentido daquilo. A cena era linda, a mulher apaixonada é linda.
-O que é que se pode concluir aos vinte e quatro? Ela pensava enquanto buscava mais perguntas.
E logo a resposta sarcástica vinha vomitada, imbecil.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ficção I : um envelope cor de pele com marca de batom vermelho puta

disseste repetidamente não para um desejo eloquente, um quase amor.
e depois das frases programadas, das palavras cheias de outras coisas, me atentei para outros lados. Distraí-me, querido.O anseio pelo suspiro já não é, procurei alguma ardência, formigamento, alguma emoção, só me chegava a negação. Perdi em algum momento que não sei qual foi, a vivacidade daquilo tudo, a história agora é crônica, rápida. A ausência de sentido me tomou conta, rasgou o peito, percorreu as veias cheias do sangue fervoroso, vermelho puta, paixão. Gostar da intensidade é beirar ao precipício, tanto quanto seu oposto extremo. E cruzar essa linha pode ser fatal, na pior das hipóteses. O que pairava no ambiente era uma expectativa por descobrir, num descuido da vaidade, alguma sinceridade. A expressão era continuamente monótona e eu caí na observação, sempre tendi ao silêncio...Fui posta numa posição que não me serve, como se implorasse por alguma reação. Não, não é nada disso, meu bem. Não se culpe por não ser um psicótico, um anormal, um avulso às sensações, que não é tua essa vida, é de um outro ídolo, uma outra personagem...Nossos calcanhares de aquiles são maravilhosos depois que descobertos e aceitos, a dor é boa, o sangue ferve, vida. É linda tua fragilidade mascarada e tua sensibilidade à flor da pele, apesar dos desgostos da carne e outros traumas, é maravilhosa a frustração por medo de tentar gozar o mundo, é fundo querido, profundo.Outra hora talvez eu queira seduzir você, num abrupto surto sexual. E dizer tanto sexo por agora faz com que eu ache graça, porque não é minha prioridade. Sim, a libertinagem me proporciona tudo isso, mas em períodos férteis, não é contínuo, não é. Essa sua falta de coragem e ação só me remeteu ao que mais te incomoda, a destruição por opção. Tão romântico és...e eu sou apenas uma apaixonada. Chore, meu quase amor, quando quiser ....que eu olho para trás e sorrio para você.

Com carinho,
Paixão.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

sobre como sentir sem tocar é tão real quanto tocar para sentir

que atrevimento...que pretensão!
me comer daquele jeito
com olhos de predador
e eu, como toda caça me congelei
e quando percebi que teria que agir
qualquer coisa, qualquer uma
pra não deixar morrer
agi como quem diz; senti
desajeitada, comida.
aquela foi a nossa primeira
transcendeu e cá estou
a escrever sobre uma transa que de fato aconteceu
em outro plano, de uma outra forma
sem toques, sem carne
só olhos, boca e água

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

quéns?

palavras ou gestos?

sem cartas na manga, nem frases de efeito
desconcertante a mente simples
cada palavra, um elemental cravado na memória do universo
verso único

o ato de fato concretiza a intenção terciária da palavra
o que vale?
supra sumo da ideia ou a ação impregnada de impulsão?
é físico, new.

quanto diz tuas palavras, sabes?
quanto vale tua ação, percebes?

o ato pensado não é a essência
essência é outro freelance
e além das coisas existem outros poréns

rasgo o peito para me encher de bravura
e dizer que;
certas vezes sei do que falo
erradas, tantas outras.

falo para o tudo e para ninguém
tenho medo
por fim, quem não tem?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

estilhaços

tristeza tem um único significado
as intensidades é que pairam em outros níveis

sim, eis o idílico encanto do abstrato
que é tudo só por ser visto, ouvido, sentido

O silêncio...esse fazedor de mentes...

É muito sentido para muita matéria
é tanto sentido que o próprio sentido quando descoberto
se encontra no centro do mundo,você
as coisas são coisas e só.

egos espelhados, espalhados por tudo.