sexta-feira, 13 de abril de 2012

Awop-bop-a-loo-mop alop-bam-boom

- Dê-me a mão; disse.
Trouxe ao peito, pressionei com a força de quem não quer deixar dúvidas, perguntei em seguida:
- é esse o ritmo ?
ele, com os olhos demasiadamente abertos, esboçou um meio sorriso e disse:
- é.
Levantei-me, saí da meia luz e sus pirei:
- então vamos dançar.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Anemoscópio

Engulo o vento e coleciono suspiros
estufo o peito e direciono palavras
coisas perdidas
frases soltas
poetas esquecidos

dei a letra
para vendo
numa outra
direção


que no alto não se usa os pés
que o vento não se tem nas mãos
 que são cópias de partes inteiras
o vento
a letra
as mãos.

sexta-feira, 16 de março de 2012

cinemudo

lembranças do cinza
aquele fosco sedutor
lembranças das cortinas fechadas
da cor pálida
da meia luz no quarto
dos chás

estado febril confortante
dizeres da máquina de carne moída
pré tensões putrefatas
volátil

são os olhos
esses alarmadores
que quando captam o suficiente
gozam no rosto
sádicos

segunda-feira, 5 de março de 2012

aos poucos

Os músculos, traumatizados ainda doem. As veias continuam saltadas e já é outra noite. Não sei se durante o sono o sangue esfriou, sei que dormi pouco e mal. Para um corpo traumatizado, o tempo é mais gentil,somos menos responsáveis. O que pretende o tempo fazer com a minha cabeça? Não vou esguiar de minha própria existência, vou me culpar apenas pelo que sou e pelo que fiz.Os achismos eu deixo para você. Não é o corpo que treme, é o choque do meu mundo com as palavras tuas. Não é a vermelhidão do meu rosto, do meu pescoço, dos meus braços que me faz ser tela, é a cena toda que me fizeram ser parte. É o muro e são as pedras. O que posso fazer, se toda reação que me permito expor, com a maior fragilidade, te faz subir uma sobrancelha, lançar aquele sorriso irônico? Tudo soa como exagero. E aí meu corpo treme, desesperado por compreensão, por qualquer sinceridade. O respeito se perdeu no tom das perguntas e o que ficou no peito, não é bom. O drama perfeito, digno de Hollywood. E não sou eu quem dirige, não sou eu quem atua, não sou eu que sou. O que me permitiram ser, eu recusei. Agora estou sozinha. Não sou vítima, não sou vilã, sou a completa falta de existência. Vou mentir e me destruir aos poucos. Um ataque de nervos, eu sou a louca.

domingo, 4 de março de 2012

Ficção III : perdão, só que ao contrário

O pior dia da minha vida, foi quando descobri o que minha família acha que eu sou.
Eu sou intragável, a decepção personificada, o vício, o descontrole, o desrespeito, a vergonha nos olhos de quem vê. Sou tudo isso, senhores da razão, tudo isso só que ao contrário. Egoísmo é me ter como exemplo aos seus modos e jogar esse fardo nos ombros de quem daria a vida por vocês. Sim, eu sei que fariam o mesmo, mas não sem antes me matar. Renasci numa noite para morrer noutra. Colocaram-me novamente na posição que eu menos gosto de estar. Agora eu sou esse animal raivoso. Agora e outra vez.
Dez anos de culpa pesaram hoje, e me tornaram isso. Sem culpas pelo que não sou, e toda a culpa pelo que faço. Esse animal.
Só que ao contrário.